Ninguém tolera mais tanta violência.

Ninguém tolera mais tanta violência

O que deu errado? A economiária Ângela Maria da Fonseca, 51, poderia fazer uma lista gigantesca. Não, a vida não estava tranquila antes da morte de Matheus. O filho mais velho já fora assaltado 5 vezes e ferido 2. O filho mais novo, Gabriel, 13, em plena manhã e indo para uma aula, também já fora vítima da violência. Na rua onde mora, sugeriu para os outros moradores do prédio a colocação de holofotes na parte externa para conter os assaltos. Mas o inacreditável aconteceu na primeira sexta-feira de fevereiro deste ano. Matheus Salviano, 21, estudante de economia, um jovem cuidadoso e preocupado com a própria segurança e a da família e amigos foi barbaramente assassinado quando bandidos roubaram seu carro. Seria completamente justificável se, 1 mês após a morte de Matheus, Ângela não quisesse ver ninguém por causa da dor, mas ela coloca o luto de lado para lutar não pelo filho. O basta é pelos filhos de outras e outros, anônimos, que em sua opinião merecem voltar para os pais todas as noites. “O Matheus não volta mais”, diz.

 
Mais do que um pedido de socorro, o grito de mães, pais, filhos, irmãs, cidadãos é de indignação. Eles querem sair às ruas com tranquilidade, não ficar sobressaltados se o filho se atrasa por 15 minutos, não ouvir a pior notícia que qualquer um poderia receber – a da morte da pessoa querida. No ano passado, 844 pessoas foram assassinadas em Belo Horizonte, 7,38% a mais do que no ano anterior, e 4.162 em Minas Gerais, 6,07% maior do que 2012.  Os números dos crimes violentos e contra o patrimônio de 2013 também foram maiores do que os do ano anterior.  
 
Apenas 2 meses de 2014 e Belo Horizonte está passando por uma onda de violência sem precedentes. Assaltos à mão armada, latrocínios, assassinatos. Especialistas afirmam que o aumento da violência não é um fenômeno novo e que a explosão é a consequência da expansão do poder das quadrilhas, mas também da ineficiência de políticas públicas com ações permanentes, da legislação brasileira que privilegia a impunidade com suas postergações e brechas. A falta de equipamentos e de infraestrutura que não permitem a identificação e consequente julgamento e condenação dos criminosos também são citados como fatores para esse crescimento.
 
“Se contabilizarmos os dados, vivemos em um cenário de muita insegurança. São necessárias políticas, diagnóstico bem fundamentado, um plano que priorize crimes específicos, recursos”, diz o sociólogo Frederico Couto Marinho, pesquisador do Centro de Estudos de Criminalidade e Segurança Pública (Crisp).
 
A resposta do estado para tentar frear essa violência veio em meados de fevereiro, quando o governador Antonio Anastasia anunciou a criação de 2 batalhões com 400 militares cada, o aumento do policiamento ostensivo e os investimentos em 3.500 novas viaturas e 800 câmeras de videomonitoramento. Pelo menos 40% desses equipamentos devem ser para a Grande Belo Horizonte. O secretário de Estado de Defesa Social, Rômulo Ferraz, observa que as medidas visam não só reduzir a violência estatisticamente comprovada, mas também aumentar a segurança tão almejada pela população. Ele afirma que o governo tem realizado diagnósticos para desenvolver estratégias e ações.
 
“A segurança assume um caráter de prioridade e o governo do estado está tomando medidas imediatas e administrativas”, diz Rômulo Ferraz.  Ele observa que o esforço é para diminuir a burocracia das polícias e aumentar o máximo possível de efetivos das polícias Militar e Civil nas ruas.
 
Quando se trata de violência, não há meio termo, na opinião do sociólogo e cientista político Moisés Augusto Gonçalves. Se não houver compreensão das diversas dimensões da violência, o risco é de propor soluções cosméticas que, em vez de atenuarem, agravam o problema. Para ele, o enfrentamento da violência passa por questões complexas e ações imediatas para proteger a dignidade do cidadão e medidas de médio e longo prazos que incidam sobre o cerne do problema. É bom que se diga que não são questões fáceis. Pelo contrário, há mais de uma década assombram os brasileiros. 
 
“Temos de enfrentar as redes globais de crime organizado, particularmente o tráfico de armas. Também a necessidade e a coragem de repensar as políticas em relação às drogas, o problema da desigualdade social e as profundas tensões que têm permanentemente gerado, além da reformulação do sistema carcerário e das agências de segurança”, observa Gonçalves. Ele tem dúvida se a população está realmente consciente da grandiosidade do problema. Para o sociólogo, há percepção dos sintomas, um certo pânico, mas não a compreensão que possibilita alternativas para enfrentá-lo. “O que temos visto é apenas um clamor midiático e de grande parcela da opinião pública pedindo mais do mesmo.”
 
Se, de fato, existe essa incompreensão das alternativas, a indignação e o medo são motivadores para que algumas pessoas tentem sair do que consideram a passividade diante dos casos de violência. Foi assim com Elaine Barra, 50, criadora do movimento Mães Mudando o Brasil, que diz que o brasileiro não tem sido tratado com a mínima dignidade. A análise é a de que estamos à beira da barbárie e que a sociedade precisa se movimentar – para mudar a violência, a desigualdade, a corrupção.  
 
O próximo passo é transformar o movimento em um conselho propositivo, que fará reuniões em locais públicos na busca não só de mudanças efetivas, mas também de um trabalho conscientizador para que a população entenda sua força. “As eleições estão chegando e podemos mudar essa realidade. A vida não está valendo nada. Estamos fustigados e abandonados. A nossa indignação é muito grande”, diz Elaine Barra.
 
Há também uma resposta violenta e contrária à lei de fazer justiça com as próprias mãos. Pessoas de diferentes partes do país têm amarrado suspeitos de crimes em postes e também feito linchamentos. Para o pesquisador do Crisp, Frederico Marinho, essa é a maior demonstração da baixa legitimidade e descrença no estado. “Esse é uma situação de barbárie, de todos contra todos, que deve ser reprimida pelo estado para que ele recupere sua legitimidade.” Moisés Augusto vai além e observa que essas reações são venenos ditados pelo senso comum rebaixado ou ideologias da morte que vestem a roupagem de medicação milagrosa. “A história tem mostrado as consequências nefastas dessas proposições”, avalia.

Ângela Maria da Fonseca

51, economiária

Mãe de Matheus Salviano Botelho de Morais, 21, estudante, morto em fevereiro deste ano ao ser baleado por ladrões
 
“O Matheus merecia estar vivo para continuar realizando o que pretendia. Estava numa idade bonita, na faculdade e com mil planos. Ele queria, neste ano, fazer estágio e também um curso de alemão, já que acreditava que uma língua só na profissão escolhida (engenharia), não bastava. Nos últimos tempos, meu filho havia sofrido 5 assaltos e nos 2 últimos chegou a ser machucado, o que fez com que ficasse bastante cauteloso. Em alguns lugares, passou a não ir de carro e, mesmo para levar a namorada em casa, preferia chamar um táxi. Na questão do curso do alemão, estava olhando também uma aula para que o Gabriel (irmão mais novo) pudesse ir junto. Eles também iriam fazer muay thay no mesmo local. Era sempre assim, cuidadoso e preocupado com todos ao seu redor.
 
Sei que o Matheus não volta mais, mas que outros não morram e que nenhuma mãe sinta a dor que estou sentindo, porque sei que ela será eterna.  Não podemos viver assim, com medo, desprotegidos, sem pode andar livremente nas ruas. Estamos em ano de eleição e temos que ver o que os candidatos falarão sobre segurança pública. Durante o velório do Matheus, notei que todo mundo que veio me consolar tinha um caso recente de violência para contar. A violência explodiu. Precisamos de ação, de polícia na rua. A criminalidade aumentou, mas o efetivo não. Antigamente, para evitar a violência, falávamos para os nossos filhos, volta mais cedo. Hoje, não existe mais horário para a violência.”

Erlane Viggiano Rocha

49, artesã

 

Irmã de Lívia Viggiano Rocha que, com o namorado Alexandre Werneck, foi assassinada, em janeiro deste ano, na Serra do Cipó
 
“A minha maior sensação é a de que vivemos em tempos extremos em que um ser humano passou a caçar o outro e o pior é que não sabemos onde isso vai parar. Desde a morte da Lívia, estamos vivendo um dia de cada vez. Ela era a caçula e, mais do que minha irmã, era como uma filha. É uma dor enorme perdê-la. Me indigno porque essa situação de violência tem que mudar. Penso nos meus filhos e também nos netos que vou ter um dia. O que vai ser deles? Há 2 semanas, uma sobrinha foi assaltada. Graças a Deus não houve nada grave, exceto a violência de você ter arrancada uma coisa que é sua. 
 
Quando os assassinos da Lívia e do Alexandre foram presos, estava na delegacia. Olhei dentro dos olhos e o que senti foi frieza e indiferença. É preciso tomar uma atitude, mudar essa situação. Ao mesmo tempo, a vida continua e não podemos recuar. Oriento meus filhos sobre cuidados para evitar a violência, mas, ao mesmo tempo, penso que a Lívia e o Alexandre estavam em um mirante, frequentado por tanta gente, e foram vítimas. Então, paro e me pergunto: o que é uma situação de risco? Nem saberia mais dizer, porque a lista é grande. O que sei é que a Lívia deixou os filhos e tudo mudou radicalmente. Eles perderam a casa onde viviam, a mãe e agora têm que reaprender a viver de uma forma diferente.”

Vanessa Marques Gontijo

Autônoma, 29

 

“Pense em uma pessoa indignada com um assalto. Em pleno centro de Belo Horizonte já saí correndo atrás de um assaltante que levou meu celular. Só parei quando cheguei a um lugar e vi que o ambiente não era legal. No ano passado, fui assaltada 10 vezes. Todos os roubos foram de celulares. Cheguei a um ponto em que fui roubada em 3 dias seguidos e perdi 2 aparelhos que havia acabado de comprar. Fico tão desorientada que já cheguei a ser parada na rua por outras pessoas, preocupadas. Em uma dessas vezes, uma pessoa me falou que havia um templo religioso ali perto. Fui. Acho que ela viu como estava chateada, indignada, porque ser roubado é muito revoltante. Além de sofrer a violência, há toda aquela chateação de você dar duro para comprar algo, ficar endividada e aí, de uma hora para outra, não ter mais o seu bem. Em um dos assaltos, senti que havia algo na mão de quem estava me assaltando. Só quando fui tomar banho é que vi que estava machucada na barriga. Mas tenho uma amiga que apanhou do assaltante. Tenho muita insegurança em andar nas ruas. Fico o tempo todo alerta, tomo precauções. Não ando com nada aparente.”

Augusto Resende Castro

31, representante comercial

 

“Não sei falar quantas vezes já fui assaltado, mas posso afirmar que foram várias. Já fui assaltado com turma, sozinho, por motoqueiro, no trânsito, no carro. Mas, sem dúvida, o mais marcante foi quando um assaltante me ameaçou com uma arma. Eram 9 horas da manhã. O sentimento foi de impotência, de querer mudar desse país, de que não há mais solução. Me indigno porque queria andar com tranquilidade, sem ter que me preocupar se a minha roupa ou o meu celular vão chamar a atenção. O desejo é de ser feliz onde moro, andar de dia e de noite como ando em uma cidade do interior. 
 
Por causa da violência, passei a ser uma pessoa que não se dá o direito de andar distraído. Inclusive, por causa dessa mudança de postura, evitei outro assalto recentemente porque comecei a correr e entrei em um bar. Presto mais atenção à minha volta. E não ando mais com mochilas ou roupas que possam chamar a atenção dos bandidos. Mas, se tiver que entregar, entrego. Na última vez em que fui assaltado, vi que o cara estava noiado, na fissura por causa de alguma coisa. Não era um assaltante profissional. Fiquei muito tranquilo, afinal, já passei por isso várias vezes. Lógico que na hora do roubo passa pela cabeça o quanto ralei para comprar aquilo, mas sempre penso que a vida é bem mais cara.” 
 
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