Maquiagem da criminalidade: Governo “esquece” homicídios.

Governo "esquece" homicídios

Balanço divulgado pela Delegacia de Homicídios de Betim, na região metropolitana de Belo Horizonte, revela que o quadro da violência é bem pior do que o apresentado, oficialmente, pelo governo de Minas. De acordo com a delegacia especializada, em 2011, foram registradas 235 mortes, com 230 inquéritos instaurados. Porém, na estatística divulgada pela Secretaria de Estado de Defesa Social (Seds), na última quinta-feira, foram "esquecidos" 37 casos, ou 15,74% do total , já que a Seds contabilizou 198 homicídios.

A diferença foi percebida também na taxa de homicídios, que leva em consideração o número de assassinatos por cada grupo de 100 mil habitantes. O governo afirmou que, em Betim, o índice foi de 42,6 mortes no ano passado. Porém, ao se dividir o número de assassinatos (235) pelo número de habitantes (378.089) e multiplicar por 100 mil, a taxa chega a 62 homicídios por cada grupo de 100 mil habitantes – a Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que o índice não seja superior a dez.

A discrepância dos números em Betim apenas reforça a fragilidade dos dados oficiais em Minas. Em um primeiro momento, a Seds informou que em 173 cidades mineiras não foi registrado nenhum caso de crime violento em 2011. A reportagem de O TEMPO, então, consultou batalhões da Polícia Militar de dez dessas cidades e, em todas, encontrou exemplos de ocorrências. Após a apuração do jornal, a Seds reduziu a lista de municípios sem crime para 91 e informou que houve erro na geração da lista.

Em relação a Betim, a secretaria justificou a diferença entre os dados oficiais e os da Delegacia de Homicídios, alegando que os casos de vítimas que morreram posteriormente ao registro da ocorrência (no hospital, por exemplo) não foram considerados.

A resposta não convence especialistas em segurança pública, uma vez que o Estado implantou, há sete anos, o Registro de Eventos de Defesa Social (Reds) com o objetivo de integrar dados policiais. "O Reds foi criado para resolver isso. Se a PM registra um caso como tentativa de homicídio, na sequência, o homicídio pode se consumar com a morte da vítima. Então, as informações têm que ser apuradas num único processo", explica o sociólogo Robson Sávio, membro do Fórum Brasileiro de segurança Pública (FBSP).

Para o especialista, a Seds sofre com problemas de gerenciamento de informação. "Esse é o órgão integrador e não pode produzir informação contraditória. Isso demonstra uma incapacidade de coordenar as polícias", afirma.

PASSIONAL. Em Betim, casos de homicídios são de conhecimento geral. "Sempre fico sabendo de histórias de gente que foi assassinada. É constante e me assusta muito. A polícia tem atuado, mas não surte efeito". O desabafo é de um morador de 24 anos do bairro Jardim Petrópolis, que quase morreu assassinado numa noite de fevereiro.

Ele conversava com amigos na rua do bairro quando foi surpreendido por outro amigo, que chegou querendo matá-lo. Após apontar a arma, o suspeito percebeu que não havia munição. "Ele tentou me matar porque mexeu com minha namorada dias antes. Daí, eu e outros amigos cortamos amizade com ele. Isso o irritou".

Maquiagem

Denúncia. Dados sobre criminalidade foram divulgados após O TEMPO mostrar que comandantes da PM receberam ordem para não divulgar índices que evidenciassem o aumento de crimes.

Assembleia
Pedido de afastamento de secretário é aprovado

A permanência do secretário de Defesa Social, Lafayette Andrada (PSDB), à frente da pasta está ficando cada vez mais difícil. Ontem, o deputado estadual Durval Ângelo (PT) conseguiu aprovar um requerimento na Comissão de Direitos Humanos da Assembleia, solicitando o afastamento dele do cargo.

Segundo Durval, desde a posse do tucano, a gestão da segurança pública piorou muito e os índices de violência aumentaram. "O que aconteceu é o que está sendo denunciado: a maquiagem dos dados da segurança pública, o que é gravíssimo", afirmou Durval.

Nos bastidores, a informação é que o governo do Estado já teria feito um convite para que o procurador Rômulo Ferraz assuma o cargo. Entretanto, o governador Antonio Anastasia ainda não teria recebido uma resposta.

Ferraz, que acabou de deixar a presidência da Associação Mineira do Ministério Público, teria a intenção de postular o cargo de procurador geral. O fato de assumir um cargo no Executivo poderia inviabilizar sua pretensão. Por outro lado, recusar um convite do governador também não seria uma boa saída política. (Carla Kreefft)

 

Fonte: Jornal O Tempo, 7 de março de 2012

 

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