Enquanto Governo Zema anuncia reforma física na Acadepol, levantamento com a base aponta crise no ensino: policiais criticam excesso de "ordem unida", falta de custeio para cursos presenciais e rejeitam aulas online.
Pesquisa inédita: 58% dos policiais civis de MG afirmam que a instituição não está preparada para enfrentar o crime organizado
O recente anúncio do Governo de Minas Gerais sobre o investimento de R$ 4,3 milhões em reformas estruturais na Academia de Polícia Civil (Acadepol) trouxe à tona um debate urgente: do que adianta um prédio novo se o ensino está defasado?
Uma pesquisa inédita realizada pelo Sindpol-MG com policiais civis de todo o estado revela uma realidade preocupante, invisível na propaganda oficial. O levantamento mostra que a insegurança técnica é a regra, não a exceção.
Questionados se a instituição está preparada para enfrentar o avanço das facções criminosas no estado, 58,1% dos policiais responderam categoricamente que NÃO. Outros 37,1% afirmaram que o preparo é apenas “parcial”.
Na prática, isso significa que mais de 95% dos servidores que estão na ponta da segurança pública sentem que falta qualificação adequada para lidar com a complexidade do crime organizado atual.
O Abismo entre o Presencial e o EAD
A pesquisa do Sindpol detalhou a percepção dos policiais sobre a qualidade dos cursos. Os dados apontam uma preferência esmagadora pelo ensino prático e uma rejeição maciça ao modelo de Ensino a Distância (EAD), priorizado pela gestão atual.
Cursos Presenciais: São bem avaliados. Cerca de 64% dos policiais deram notas altas (4 ou 5) para as instruções presenciais, destacando a importância da troca de experiência e da prática.
Cursos EAD: A rejeição é alta. 55,2% dos participantes classificaram os cursos online com as piores notas possíveis (1 ou 2).
Nos comentários da pesquisa, os policiais civis foram enfáticos: “Não tem como sanar dúvidas pelo EAD” e “A falta de contato com o professor prejudica o ensino da técnica policial”.
“Militarização” do ensino e falta de investigação moderna
Outro ponto crítico levantado pelo estudo é o conteúdo da grade curricular, especialmente no curso de formação inicial. Há uma insatisfação generalizada com o foco em formalidades militares em detrimento da inteligência investigativa.
Relatos colhidos na pesquisa apontam para um “incrível desperdício de tempo marchando e fazendo ordem unida”, enquanto técnicas essenciais de investigação, combate à lavagem de dinheiro e cibercrimes são ministradas de forma superficial.
“O policial civil não precisa aprender a marchar no sol quente. Ele precisa aprender a rastrear o dinheiro do tráfico, a operar tecnologia de ponta e a ter tática de sobrevivência. A insistência em militarizar a formação da Polícia Civil é um erro pedagógico que custa caro à sociedade“, avalia Wemerson Oliveira, presidente do Sindpol-MG.
Quem paga a conta da qualificação?
Além da metodologia, a pesquisa expôs o descaso financeiro com a qualificação do servidor. Para um policial do interior se especializar na capital, o custo muitas vezes sai do próprio bolso.
Quando perguntados se a Polícia Civil fornece os meios necessários (transporte, hospedagem, alimentação) para a realização de cursos presenciais, 81,9% dos policiais afirmaram que NÃO.
Esse dado derruba a narrativa de valorização profissional. Sem diárias e sem estrutura logística, a qualificação torna-se inacessível para a grande maioria dos servidores lotados fora de Belo Horizonte.
Posicionamento do Sindpol
Diante dos dados, o Sindpol-MG cobra que os investimentos anunciados para a Acadepol não fiquem restritos a “tijolo e pintura”. A entidade exige uma reformulação pedagógica urgente, que priorize:
Retomada dos cursos práticos e presenciais com custeio integral pelo Estado.
Modernização da grade curricular, focada em inteligência e investigação, abandonando práticas de ordem unida desnecessárias à função.
Valorização dos instrutores e descentralização dos cursos para o interior.
O sindicato continuará pressionando para que a Acadepol seja, de fato, um centro de excelência em investigação, e não apenas um prédio reformado em ano pré-eleitoral.
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