Falta de estrutura: Diretor do SINDPOL/MG reintera denúncia de sucateamento do serviço de remoção de cadáveres.

Os 5,4 milhões de moradores de Belo Horizonte e da região metropolitana têm à disposição quatro rabecões, veículos da Polícia Civil usados para remover corpos no caso de morte violenta ou por causa desconhecida. Com uma média de 1,3 milhão de cidadãos para cada carro, a espera para a remoção dos corpos chega a dez horas. Enquanto a população sofre com a demora, a corporação tem outros quatro carros parados.

O problema, de acordo com o chefe do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, delegado Wagner Pinto, é que falta pessoal, já que a polícia conta apenas com quatro ‘rabequeiros’, os responsáveis por dirigir os veículos e remover os corpos.

O salário inicial do rabequeiro é de R$ 2.200 por 40 horas semanais de trabalho, e o último concurso para a categoria foi realizado em 2009.

Segundo o delegado da Polícia Civil e diretor jurídico do Sindicato dos Servidores da Polícia do Estado de Minas Gerais (Sindpol), Christiano Xavier, o Estado já autorizou a realização de uma nova seleção, com 300 vagas para investigador (cargo do rabequeiro), mas o edital do concurso ainda não foi publicado.

"Esse cenário (de falta de pessoal) não é de agora. A estrutura está só encolhendo. O quadro de efetivos é menor que na década de 1980, sendo que a criminalidade aumentou e até o efetivo da Polícia Militar cresceu", afirmou Xavier.

Ainda de acordo com o sindicalista, o índice de pedidos de exoneração na corporação como um todo é alto. "O principal motivo da desistência é a sobrecarga de trabalho. Há muitas licenças médicas e psiquiátricas. Aproximadamente 20% do efetivo da Polícia Civil está afastado por causa dessas licenças", completou Xavier.

Na reserva. Segundo Wagner Pinto, mesmo sem um profissional para operar, os veículos extras são necessários porque os rabecões precisam de manutenções frequentes.


"Ficamos mais de uma década contando apenas com três carros. Desde julho do ano passado, começamos a contar com quatro. E os outros quatro rabecões ficam na reserva porque os que rodam têm um desgaste natural muito grande por causa do estado dos locais onde transitam", justificou o delegado.


Cada rabecão remove 12 corpos diariamente, em média, e roda aproximadamente 200 km todos os dias. Wagner Pinto informou que a previsão da Polícia Civil é adquirir, no máximo em julho deste ano, outros 45 veículos para o Estado. "Esperamos que 15 deles venham para a capital e para a região metropolitana", afirmou o delegado.

Uma polícia prejudica a outra, sugere delegado

As muitas ocorrências de homicídios servem como explicação para a demora na chegada do rabecão onde foi solicitado o serviço. Apenas no primeiro fim de semana de maio, foram nove assassinatos em Belo Horizonte e na região metropolitana, segundo dados da Polícia Militar.


Prioridades. O aumento na criminalidade não é a única justificativa para a demora no serviço. Um delegado que atua em uma cidade da região metropolitana e pediu para não ser identificado afirmou que, muitas vezes, "a Polícia Militar, primeira a ser acionada em casos de homicídio, chega ao local rapidamente, mas demora a acionar a Polícia Civil porque quer prender o responsável pelo crime primeiro e finalizar o próprio trabalho". (CG)

Realidade
Morador sofre com lentidão

Enquanto as melhorias não chegam, a população sofre com a falta de estrutura. A família de Roberto* é um exemplo. Aos 46 anos, o aposentado morreu em casa, em Matozinhos, na região metropolitana. O corpo foi descoberto no fim da manhã do último dia 5, quando seu irmão Pedro* foi até o local. Os dois iriam juntos para a festa de 15 anos da sobrinha.


Depois de chamar e não ser atendido, Pedro resolveu pular o muro. Ao se aproximar de uma das janelas, viu moscas e sentiu um forte mau cheiro. Ele arrombou a porta e encontrou o irmão morto, na cama. O empresário conta que os policiais militares chegaram e chamaram a perícia e o rabecão. O perito demorou uma hora e 30 minutos para chegar. Já o rabecão apareceu quase dez horas depois de ser acionado, às 22h30. "A gente só descobre que demora tanto quando precisamos dele", desabafa o irmão da vítima.


Em outro caso, em Nova Lima, na região metropolitana, o ciclista Ricardo*, 40, morreu depois de bater em um poste. Mesmo com o corpo exposto na rua, que seria prioridade da Polícia Civil, a espera pelo rabecão foi de quatro horas.


Outro lado. O delegado Wagner Pinto afirmou que cada caso tem sua particularidade. "Eu escalo o serviço dentro dos recursos humanos e das condições que me são oferecidas. O atendimento depende da demanda e da distância a ser deslocada pelo rabecão", disse.(CG).

Fonte: Jornal O Tempo
Disponível em 15/05/2012: http://www.otempo.com.br/noticias/ultimas/?IdNoticia=203356,OTE

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