A chegada de 2026 e o início do calendário eleitoral trouxeram uma súbita mudança de postura do Governo de Minas Gerais em relação à Polícia Civil. O governador Romeu Zema e o vice-governador Mateus Simões anunciaram, nesta semana, um pacote de investimentos de pouco mais de R$ 4 milhões para reformas estruturais na Academia de Polícia Civil (Acadepol).
Embora a climatização e a pintura nova sejam bem-vindas, o Sindpol-MG alerta a categoria e a sociedade para os bastidores do anúncio. Para a entidade, a medida soa como “maquiagem” de fim de mandato e esconde a falta de prioridade orçamentária do Estado com a segurança pública.
Recursos não são do Tesouro Estadual
Um dos pontos críticos levantados pelo sindicato é a origem do dinheiro. Ao contrário do que a propaganda oficial sugere, os recursos não representam um esforço financeiro do Governo Zema.
A verba é composta por repasses do Acordo de Brumadinho, verbas do Ministério Público e do Fundo Nacional de Segurança Pública. Ou seja, trata-se de recurso “carimbado” de outras fontes, evidenciando que a valorização da Polícia Civil continua fora das prioridades do orçamento estadual.
Tijolo novo não ensina a investigar
Mais grave que a questão financeira é o descompasso entre a reforma física e a necessidade pedagógica. Uma pesquisa recente realizada pelo Sindpol com seus filiados revelou um dado alarmante: quase 60% dos policiais civis afirmam que a instituição não está preparada para enfrentar o crime organizado.
“O policial civil não quer apenas aula EAD. Quer inteligência policial, investigação moderna, capacitação prática e tecnologia. O ensino precisa evoluir. A formação precisa acompanhar o crime, que já é organizado, tecnológico e violento”, destaca Wemerson Oliveira, presidente do Sindpol-MG.
Para a entidade, investir em paredes sem modernizar a grade curricular e sem valorizar os instrutores é uma medida paliativa que não resolve a insegurança nas ruas.
Ordem e Progresso: Uma vitória da pressão sindical
O pacote anunciado também inclui melhorias para o Colégio Ordem e Progresso. O Sindpol ressalta, no entanto, que esse investimento não é um ato de bondade do Executivo, mas o resultado direto de intensa pressão da categoria.
Foram meses de ofícios, reuniões com secretários e cobranças junto a deputados estaduais para garantir dignidade aos filhos dos policiais. O sindicato reforça que, além da infraestrutura, a escola necessita de transformações pedagógicas e de gestão.
Central de Custódia: Improviso após escândalo
Outro anúncio foi a criação de uma Central de Custódia, uma demanda histórica do Sindpol para retirar presos das delegacias. Contudo, a ação do governo ocorre apenas após a ampla repercussão negativa do escândalo da delegacia do Barreiro.
A solução apresentada — o uso de um imóvel alugado em caráter emergencial — demonstra, mais uma vez, a falta de planejamento de longo prazo para a Polícia Civil.
Obra não compra silêncio
O posicionamento do Sindpol é claro: reformas são necessárias, mas não substituem a principal demanda da categoria, que é a recomposição das perdas inflacionárias e a valorização salarial.
“Governador, obrigado pela reforma. Mas obra não apaga anos de desvalorização salarial, nem compra o silêncio da categoria na hora do voto”, finaliza Wemerson.
O Sindpol-MG reafirma que segurança pública de qualidade não se faz com anúncios pontuais em ano de urna, mas com investimento contínuo, respeito institucional e salário digno para quem sustenta o Estado.
Deixe seu comentário